O Mar
Eram nove horas em ponto quando entrei em casa.
Um silêncio devastador fez-me parar num corredor de paredes brancas, o qual observei durante alguns segundos.
A lua brilhava lá fora, numa cidade de prédios altos e grandes janelas em cada uma delas uma vida se reflectia. E lá mesmo ao fundo um grande oceano se estendia.
Fui ate a cozinha, tinha fome então já sem paciência para fazer jantar fosse para quem fosse tirei um copo e a embalagem de leite e enchi o copo.
De copo na mão dirigi-me ate a sala onde me sentei num sofá a olhar pela janela que se dispunha a minha frente.
O relógio já marcava as onze quando me levantei do sofá e fui então para o quarto. Uma cama no meio do nada esperava por mim, seria só por mim que esperava?
As horas passavam e eu não conseguia dormir, dava voltas e voltas com uma imensidão de perguntas que me assaltava a mente.
Já era madrugada quando oiço a porta bater. Fechei os olhos e fingi que estava a dormir. Ouvi então passos ate que a porta do quarto se abriu, ouvi-te respirar eras tu.
Dirigiste-te a casa de banho e passados alguns minutos sais-te, senti que me olhavas, então ouvi novamente os teus passos, senti a tua mão pousar levemente na minha cara e sussurraste umas palavras deste-me um beijo leve e deitaste-te ao meu lado.
Já o sol ia alto quando acordei.
Já não estavas lá. Levantei-me ensonada e fui ate á sala na esperança de ainda lá estares, mas não...
Como já estava atrasada sai a correr e desci as escadas que andavam em caracol em torno do elevador. Sai porta fora e corri para a paragem mesmo em frente, tarde de mais.. Já o autocarro ia longe...Então suspirei e calmamente sentei-me e pus os fones nos ouvidos.
O autocarro não chegava então levantei-me e com a brisa fria que corria andei por ai em busca do desconhecido ao som de musicas calmas que lentamente me mostravam a minha vida.
O que estaria eu ali a fazer? Haveria alguma razão para estar ali?
Ou estaria só por estar?
Peguei no telefone e marquei o número, impedido, eram sons consecutivos que marcavam segundos...
Voltei para casa eram já quatro da tarde, farta de andar as voltas com perguntas. Mais uma vez sentei-me no sofá olhei a cidade mais uma vez...
***
Era já fim de tarde quando de livros á minha frente vi pousar no oceano uma bola de fogo que tornava a paisagem em tons de laranja e cor-de-rosa, criava um risco contínuo no seu todo levando ate a costa onde eu mais tarde me sentei.
Enchi então as minhas mãos de areia e deixei que ela lentamente deixasse os meus dedos e caísse então finalmente. Deslizou suavemente como uma ampulheta que vai mostrando o tempo a passar.
Senti então o mar a tocar os meus pés, levantei a cabeça para ver a beleza de tudo o que estava a minha volta.
Levantei-me com os chinelos nas mãos e percorri junto ao mar ate uma rocha que se salientava, então parei e coloquei lá todas as minhas coisas sentei-me nela a sentir todos os salpicos do mar.
Respirei fundo, cheirando o ar salgado que pairava por toda a praia. Não restava ninguém numa praia imensa de areia branca, e com conchas espalhadas por todo o lado.
Saltei da rocha e lentamente, vestida avancei em direcção ao mar já a agua me dava pela cintura quando uma onda gigante me engoliu, antes respirei fundo e ai depois de a onda passar senti-me viva senti em mim o frio, arrepiei-me, e então abri os braços, e assim fiquei.
Ao longe via-se o sol a desaparecer num horizonte imenso que eu observava de braços abertos, encharcada.
Então sai, sentei-me na areia sentindo pequenas picadas, passei as mãos molhadas em toda a areia á minha volta agarrei-a e espalhei pelo meu corpo.
Fechei os olhos e ali adormeci em paz, ali fiquei a sentir o mar aos meus pés e a areia no meu corpo e então sorri era um sonho que me levava para alem de tudo.
***
Ficara ali esperando o impossível...estendida no chão de olhos fechados.
Ate que quando me preparava para ir uma mão quente tocou o meu corpo...abri os olhos eras tu olhavas para mim como quem olha para todo o mundo sorriste com o teu sorriso calmo e deitaste-te também.
Deste-me a mão. E mais uma vez calmamente beijaste-me num beijo que me levou de volta para o mar. E ai como quem troca alianças trocamos as nossas vidas.Com simples beijos e palavras, que nunca esquecerei.

